LOBÃO: QUASE 600 PÁGINAS A MIL

Foto: Henrique Inglez de Souza

No Brasil, ainda existe a triste mania da memória curta quando se fala em nossa própria cultura. Ok, os medalhões estão aí, são lembrados – ótimo e mais do que justo! Porém, há muitos nomes de valor, importantes, sendo escoados cada vez mais a algum lugar assustadoramente nebuloso. Quase que a um limbo. O primeiro sintoma dessa displicência com nós mesmos está, por exemplo, nas lojas de discos. Onde estão os grandes clássicos de nosso rock ou de outros estilos? Cadê todos os discos que foram tão marcantes para curtimos? Talvez você encontre a maioria deles em sebos... e olhe lá!

Sei lá, às vezes, acho que falta uma dose cavalar de ginkgo biloba cultural àqueles que deveriam preservar decentemente nosso patrimônio. Por essa e por outras que fiquei bem animado quando soube da autobiografia de Lobão: '50 Anos a Mil' (Ed. Nova Fronteira, com Claudio Tognolli). Minha alegria aumentou assim que vi e li o tijolão de quase 600 páginas. Devorei uma salada completa causos e mais causos (desde a infância ao ano de 2009). Décadas de uma vida corrida, agitada e produtiva. Uma vida, louca vida.

Se levarmos em conta a postura contundente de Lobão àquilo que lhe feria (e fere) as convicções, ele, certamente, teve seu lado louco na história contada. Mas louco não no sentido pejorativo. Chamo de loucura um traço que anda em falta a muitos músicos e artistas brasileiros, principalmente os que a grande mídia tem nos oferecido ultimamente como novidades. Esse traço é a "loucura" de ousar, de arriscar, de provocar, de cuspir na cara da caretice e chutar a macumba do que é prosaico.

Não é que esse carismático músico carioca tenha descoberto a roda. Nada disso! (E também seria muita tolice encará-lo por esse lado). Ele foi sim um pioneiro... de sua carreira. Claro! E foi essa a roda que inventou e com a qual desceu ladeira abaixo, embalado por uma produção muito pessoal e boa, mesmo com suas influências aparecendo lá e cá ou as coisas ruins que produziu. Tal independência criativa ajudou a tornar o rock brasileiro mais brasileiro, entende?

Mesmo nas canções mais esquisitas, seus discos têm no rock a espinha dorsal da qual saem costelas bem sacadas. Exemplos não faltam. Que tal dar uma atenta conferida em sua obra da segunda metade da década de 1990? Iremos encontrar trabalhos indigestos aos nostálgicos e extremamente saborosos aos otimistas, e repletos de riffs, ideias e arranjos tipicamente rockers travestidos com outras levadas. Estou falando de 'Nostalgia da Modernidade' (1995), 'Noite' (1998) e 'A Vida é Doce' (1999).

Essa foi uma fase difícil para Lobão, devidamente retratada em sua autobiografia. Aliás, lendo as respectivas páginas, a impressão que tive foi exatamente a mesma de quando ouvi pela primeira vez esses álbuns, naquela época. Ou seja, ele estava se reinventando artisticamente em plena praça pública e aos olhos de poucos (talvez, dos imunes aos caprichos das grandes forças midiáticas). O desfecho desse processo, para mim, aconteceu no ao vivo '2001: Uma Odisséia no Universo Paralelo' (2001). Eis um dos melhores registros de palco da década passada e a prova cabal da espinha rocker de Lobão (dê uma escutada nos arranjos de músicas como 'Samba da Caixa Preta', 'Sozinha Minha' ou 'O Grito' e veja que não estou errado). Depois disso, tivemos o pesado e obscuro 'Canções Dentro da Noite Escura' (2005) e o paradoxal 'Acústico MTV' (2007) – muito questionado e pouco comentado (e olha que faturou o Grammy Latino de 2007).

Enfim, foi uma longa caminhada até chegarmos a 2011 com toda essa renovação de popularidade que acontece enquanto contamos estes exatos minutos. Foram 20 anos de oscilações na popularidade, tempos difíceis, tacadas certeiras e outras sem graça, e projetos incríveis (exemplo: a venda de CDs em bancas e o empenho que resultou na numeração de obras fonográficas). Porém, para que boa parte disso fosse possível, Lobão teve de escrever um trecho fundamental de sua carreira, que é justamente o anterior: de 1981 e 1991.

Todos os seus clássicos imediatos são dessa época. Duvido que você não conheça, ao menos, uma dessas: 'Cena de Cinema', 'Me Chama', 'Corações Psicodélicos', 'Decadence Avec Elegance', 'Canos Silenciosos', 'Revanche', 'O Rock Errou', 'Vida Bandida', 'Blá, Blá, Blá... Eu Te Amo (Rádio Blá)', 'O Eleito', 'Panamericana (Sob o Sol de Parador)', 'O Inferno é Fogo', 'Bangú 1 x Polícia 0' e 'Mal Nenhum'. Aí está parte de um conjunto de obra responsável por um dos tomos de nosso rock e nossa música em geral – e digo isso com sinceridade, sem puxação de saco.

Mas não se trata apenas das músicas e dos discos. Lobão foi atuante, estava presente. Gravou com outros grupo e artistas, colocou escola de samba para dialogar com riffs e solos de guitarra, trouxe alegria, causou polêmica, brigou, foi preso, fez barulho e não deixou nada quieto – nada que lhe dissesse respeito. E isso é vital! Essa inquietude, essa vontade de fazer a coisa acontecer com qualidade. Foi tal postura que chamei de loucura alguns parágrafos atrás. E é por essa postura que hoje estrebuchamos cada vez que a percebemos se dissipando pelo caminho. Fico triste ao ver como o tal novo rock anda completamente trôpego e carente de qualidade (textual e musical).

Por tal razão que vibrei e vibro com '50 Anos a Mil', uma autobiografia abrangente, detalhada e, ao que nos parece, muito sincera. Foi uma viagem ler o livro. Entendi alguns porquês, descobri outros, voltei no tempo, senti ódio do Lobão, concordei com ele, tive aflição, dei risada, me diverti e viajei. Pude reafirmar minha admiração e meu respeito a um cara coerente consigo próprio. Gostei de sua autobiografia. Tem aquela pedrada do rock com cadência do samba.

O legal é que praticamente junto do livro saiu o box '81-91+DVD Acústico MTV Lobão', com três CDs reunindo algumas das melhores canções que ele lançou entre 1981 e 1991 (aquele mesmo período ao qual me referi há pouco). O material foi remasterizado por um craque: Roy Cicala, que já trabalhou em discos de John Lennon, AC/DC e outros que passaram pelos lendários estúdios Record Plant (EUA). Faltou música nesse pacotão, mas aí é aquela coisa de quem curte e sempre quer mais (embora o próprio Lobão tenha me dito que preparou a seleção em poucos minutos e que acabou se esquecendo de incluir algumas que queria). Também temos o DVD do premiado 'Acústico MTV', de 2007.

Ambos, autobiografia e box, não poderiam ter saído em momento melhor. Afinal, seria um saco ler o livro e não poder ter a opção de ouvir as músicas comentadas. OK, temos o recurso prazeroso dos vinis. Mas, cá pra nós, ficar lendo e trocando os lados dos LPs ao mesmo tempo não seria lá algo tão prático e à vontade.

Por fim, o elo dessas duas novidades de Lobão está justamente no início do que considero sua fase atual (2009-2011): duas canções inéditas e muito boas! Falo de 'Song For Sampa' e 'Das Tripas, Coração', as quais estão à disposição para quem quiser baixá-las no site do cantor e guitarrista carioca. É grátis!

Henrique Inglez de Souza


Comentários

  1. Concordo em genero, numero e grau. Este Lobão é um genio do Rock nacional. O que se pode dizer mais de um genio da nossa música, que alem de rockeiro e uma pessoa completa no meu entender.
    Nada a acrescentar.

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  2. Pois é... ele, pelo menos, movimenta a cena, o que é vital para que a produção continue se renovando. Vital, eu digo, não somente o Lobão, mas todos os artistas deveriam movimentar a cena. A maioria fica nessa lenga-lenga inerte. Não é só reclamar e criticar. Tem que produzir, e esse é um dos méritos do Lobão.

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  3. Concordo com você. No Brasil, temos poucos exemplos de abnegados pelo rock como o Lobão.

    Estou na metade do livro e ele realmente é fabuloso.

    Parabéns pelo texto.

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  4. Valeu! O livro é bem legal mesmo. Você começa a ler e não para mais, apesar de ser o tijolão que é. Tem uma entrevista minha com o Lobão no site da revista Guitar Player (www.guitarplayer.com.br), que foi publicada ontem, dia 29 de março. Abraço!

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  5. Juliana L.P. Inglez de Souza31 de março de 2011 18:45

    O livro é ótimo,daqueles que a gente não consegue parar de ler e é como você falou,você sente raiva,depois concorda,dá risada e vai imaginando as cenas...Muito bom! Ah! E muito boa também está a sua entrevista com ele.Beijos.

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  6. Valeu, Ju! Ele é um cara polêmico e gosta de soltar o verbo. Pena que não coube todo o papo... 2h. Não pela polêmica em si, mas por discutirmos coisas relevantes num momento em que impera o marasmo intelectual (de uma forma geral)na prod. criativa do país que é oferecida nos grandes veículos. Beijos

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