STEVE VAI: NADA ALÉM DE TÉCNICA APURADA


Steve Vai é um dos nomes sagrados da guitarra mundial, principalmente para aqueles que veneram o lado matemático da guitarra. Ou seja, o uso impecável de uma enciclopédia de técnicas. Apesar de bom virtuoso, eu, particularmente, não o considero um velocista (tipo o Yngwie Malmsteen). É um cara que tem um domínio incrível, tem até sua velocidade, mas não está no jogo pra disputar os fraseados mais rápidos.

É um ícone e, de certa forma, pioneiro. Sei identificar suas qualidades e obviamente o respeito por sua história, mas, sinceramente, não faz parte do tipo de artista que admiro. Na música, sou muito mais pelo conjunto da obra. Ou seja, todos os instrumentistas trabalhando pela composição e não por individualidades. Não gosto de se-achismos (caso do Steve Vai). Então, acabo me atendo a algumas de suas criações ao invés de babar em seu ego pura e simplesmente porque ele "toca pra caramba".

Em novembro de 2007, quando Steve Vai veio ao Brasil, lá fomos nós (revista Guitar Player) tentar entrevistá-lo. Claro! Alguém de seu porte é pauta preferencial. Ele faria um único show no país, que seria em São Paulo. A turnê era aquela que misturava sua guitarra a arranjos acústicos (de muito bom gosto, por sinal). O disco em questão era o interessante 'Sound Theories – Vols. I & II'.

Recebi um telefonema avisando que ele faria uma sessão de autógrafos em uma loja de instrumentos na tradicional rua Teodoro Sampaio (Meca dos músicos brasileiros que estão na capital paulista). Após o evento, teríamos a chance de conversar com ele. Só não souberam me dizer quanto tempo poderíamos falar com a fera. Com essas informações, estava na cara que a tarde não seria lá muuuuito produtiva. Mas vamos nessa (ou melhor, fomos nessa)!

O local estava abarrotado e o astro atrasado – o voo chegou pouco depois do previsto e o trânsito caótico de uma grande metrópole como São Paulo não ajudou em nada. Bom, em casos assim, prefiro deixar para ver como o cara chega ao local antes de fazer qualquer previsão sobre seu humor. E não deu outra: lá veio o ícone da guitarra com aquela expressão amarrada de cumprindo-agenda.

Mesmo não o considerando um velocista da guitarra, há quem o considere como tal. E isso me veio à mente logo após minha primeira abordagem. Perguntei:

- Olá, Steve! Como vai? Sou o Henrique, da revista Guitar Player. Será que poderíamos conversar rapidinho?
- Agora não – respondeu sem pestanejar e com uma cara nada amistosa. Essa foi a única exclusiva que tive com ele, pra ser sincero. Tão rápida quanto os fraseados que ele faz com destreza e que deixam os fãs atônitos.

Depois, formou-se uma fila gigantesca de gente querendo autógrafo e foto com o ídolo. Bom jornalista que sou, lá fui eu insistir na pauta. Encarei uns 25 minutos de fila para poder falar com Vai outra vez. De novo, ouvi: "Agora não". Que saco!

Acabei descobrindo que ele iria bater um papo com alguns poucos fãs no local do show (Bourbon Street). Seria uma espécie de meet & greet (encontro seleto - pago ou definido por sorteio). O pessoal que estava na organização me falou que eu poderia tentar algo lá. "Ok, vou nessa", respondi.

Chegando ao local, depois do teste de paciência para atravessar o trânsito chatíssimo de São Paulo, já me enfiei junto aos fãs. Na verdade, eu imaginava que iria conversar com Steve Vai antes daquele encontro agendado. Mas não foi. Começou o papo e percebi que teria de me virar para conseguir fazer... uma única pergunta ao guitarrista. No fim das contas, aproveitei trechos do que ouvi e o que ele me respondeu para compor a minha matéria. Ficou joia, só que nada comparado a uma entrevista. Paciência!

Minha conclusão sobre aquela experiência foi a de que havia sido exatamente na medida do quanto gosto de Steve Vai: o mínimo (e garanto que não foi por conta da péssima receptividade que tive dele). Lembro de ter sentido uma imensa vontade de lhe dizer: "Obrigado por não conversar comigo para essa entrevista, Steve! Você me fez ter certeza de que não há nada de mau preferir guitarristas como Jimi Hendrix, Ace Frehley, Rudolf Schenker, Uli Jon Roth, Gary Moore, Scott Gorham, Slash ou 'Fast' Eddie Clarke". Mas é claro que o bom senso não me deixou ser tão antipático como Steve Vai havia sido comigo.

Depois do papo, já durante a passagem de som, ele ainda insistia em manter a cara de chato para os poucos presentes, e foi justamente quando fiz essa foto que ilustra o post. Já não gostava muito de suas músicas, imagine desde então!

Henrique Inglez de Souza

Comentários

  1. Acho que Vinícius definiu bem este tipo de pessoa.

    "O homem que diz 'sou', não é!
    Porque quem é mesmo, é "Não sou".

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  2. Eu já sabia que este cara era o diabo. Nunca assistiu "Encruzilhada"? Hauhauhauah...

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  3. Vinícius com Steve Vai? Não deixa de ser inusitado. Mas acho que se o poetinha conhecesse o guitarrista iria dizer algo como "o homem que mostra que toca pra caramba não tem 'soul'! Porque quem tem 'soul' não precisa mostrar que toca pra caramba. Apenas toca e se deixa levar".

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  4. Velho, eu quero que você me mostre um cara que tenha uma paletada igual a de Eric Clapton. Me mostre outro, que tenha a mesma de Santana. Velho, não existe esse negócio de guitarrista rápido é melhor que todos. Eu particularmente, não gosto de guitarrista que só façam solos com velocidade. Geral critica steve vai: "a, ele so é tecnica, ele so é isso", mas até hoje, ninguem consegue me mostrar outro guitarrista que toque o que ele toca, nem Satriani, Malmsteen, simplificando... ninguem. Me mostre 1 guitarrista Rockeiro por completo, que so faça solos rápidos, e que toque um Blues igual a Eric Clapton. Me mostre um que tenha o swing de Santana. O "Se-achismo" que você fala, eu vejo como apenas um teatro que ele faz em cima do palco enquanto toca, que agrada muito o público. E mais, se ele só fosse técnicas, não seria considerado um dos melhores do mundo, aliás, para apurar uma técnica basta muito e muito treino. O cara é foda. E em relação à Imprensa, tem vezes que os caras enchem o saco mesmo.

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